GUILIN, CIDADE DA ÁGUA

Chegámos a Guilin às quatro e meia da tarde. Um calor abafado, prenúncio de trovoada, caía sobre a estação de comboios. A primeira palavra, sul. O ar condicionado numa viatura impecavelmente limpa, a música pop da rádio e o estilo do motorista, nervoso e com alguns tiques que demorámos a perceber, fizeram-nos crer que íamos a caminho de uma festa. Cerca de trinta minutos durou o percurso até ao centro da cidade. Queríamos mais, estava boa a corrida.

Quando chegámos, o motorista abriu-nos a porta cheio de sorrisos nervosos. A nossa inércia em sair demorava. Fora do táxi, caíam baldes de ar quente. Arrastámo-nos por um beco esquecido da cidade, que misturava parque de estacionamento, com a receção de um serviço que não cheguei a perceber qual e uma lavandaria até ao discreto hotel onde íamos ficar. Surpreendentemente o hotel e os quartos eram perfeitos, grandes e com chão de madeira, ar condicionado silencioso e vista para o rio. Cada vez mais a ideia de Sul entrava na nossa viagem. Outra China na franja do império.

Arrumámo-nos e decidimos sair antes da noite, para nos arriscarmos a perceber a cidade de Guilin. Apesar do bafo quente da rua queríamos dar corda às pernas que passaram praticamente o dia a inventar no comboio.

Guilin é genuína, não está trabalhada para se oferecer aos visitantes com pompa e cerimónia. É uma cidade relativamente vulgar, daquelas em que o planeamento urbano deixou muito a desejar e passaria despercebida se não estivesse estabelecida entre dois rios e com vários canais e lagos a atravessarem-na e a fazer de Guilin uma cidade da água. Quase sempre se está à margem de alguma coisa. A vegetação é abundante, a cidade, os passeios, as margens têm árvores de grande porte, há flores em canteiros que se multiplicam precipitadamente em várias direções. É uma cidade em que se percebe que fazer crescer o verde é fácil. Não conta propriamente uma história, há dois monumentos de referência que se fundem no mesmo lago, a Pagoda do Sol e da Lua, o must de Guilin, na gíria turística. Mas consegue-se encontrar várias estórias ao calcorrear as suas ruas e pontes. E foi o que sentimos ao passear no final da tarde no próprio dia em que chegámos.

Crianças que ao sair da escola alojavam-se entre o volante e o assento da motorizada, por vezes víamos duas de pé, perfeitamente adaptadas ao transporte. Desapareciam no trânsito conduzidas pelos familiares. Trabalhadores de serviços a fechar as lojas, famílias a procurarem restaurantes, amigos a regressarem dos estudos, por vezes discretos casais de namorados em passeio na margem do rio à margem da cidade. Os peixes e crustáceos vivos distribuídos em bacias à frente dos restaurantes, sob o olhar atento dos clientes que os escolhiam, apontando o dedo, para serem logo ali pesados num saco, sacrificados e servidos à mesa do jantar. As ruas tortas, os passeios cheios de imperfeições, algum lixo e prédios velhos, todos habitados.

Um trovão anunciou a chuva que começou a cair como uma cortina. Choveu durante toda a noite, uma cidade calada à beira do rio Li. E a promessa de descermos o rio de barco até Yangshuo, num dos trajetos mais deslumbrantes da viagem.

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Uma resposta a GUILIN, CIDADE DA ÁGUA

  1. Epa, incrível! Esses “ares” da Ásia são mesmo uma atmosfera tão diferente, mas vibrante e viciante! 😉

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